11 de novembro de 2009

Sob Álcool e Amigos


Dez horas da noite de Sexta-Feira é hora do Lust, um bar que fica em frente à faculdade. A aula havia acabado, mas a farra nem bem tinha iniciado. Fui com a Blindparents. Compramos algumas cervejas e ficamos tomando. Muitos colegas de sala estavam lá, e não eram poucos. Sexta-feira já havia virado o dia do Lust. Era sagrado e sue comparecimento quase obrigatório para a perpetuação da vida social.
Mesmo tendo conversado com outros colegas, eu a Blindparents ficamos conversando mais entre nós mesmos. Falamos sobre nossos fracassados relacionamentos. Ela me contou mais sobre o ex dela e a briga, gerada por um vídeo-pornô caseiro dele recebendo um boquete de uma putinha que pegou numa noite. Eu contei cobre o Hirh e a intimação de ter de morar com ele em São Paulo. Ficamos rindo de nossos ex, dos maus momentos e de seus defeitos. Ficamos tendo mostrar, um para o outro, que amar não vale nada. É uma perda de tempo, eu disse. E não é?!, refletiu, perdemos nosso tempo á procura de algo bom e só encontramos merda. Ficamos assim, apenas pelo fato de uma colega nossa de sala estar namorando um outro colega. Eles nunca vão dar certo, ela disse. Lógico, concordei, ele pegava ela enquanto namorava com outra ai, complementei. Eles não duram, eu lhe digo, me disse. Não mesmo, logo ele começa a pegar outra aí e termina com ela para namorar a outra, eu disse.
E assim ficamos. Olhando para eles e falando mal de todos os relacionamentos, principalmente o deles. Estávamos mesmo putos com todo e qualquer relacionamento. E eles, há, eles. Eles eram a prova de que nós é que havíamos errado. Eram a prova de como o amor poderia existir. Mas não poderíamos aceitar. Então pusemos um olho horrível neles. E falamos mal. Falar mal e por olho neles, era isto que fazíamos. Era tudo que poderíamos fazer.
Isto me fez pensar. Como eu sentia falta de algo ao meu lado. Queria voltar o namoro. Gostaria de ter a chance de voltar ao passado e apenas disser ao Hirh que iria sim a SP e viveria ao lado dele. Mas não poderia. Tenho orgulho demais para isto. Teria de viver com a perda. Ele queria algo que não poderia dar neste momento. Talvez num futuro distante, que ele não gostaria de esperar.
A noite foi um desastre. Ficamos bêbados e vomitamos. No outro dia, aula às 7 horas da matina. Consegui ir, mas com uma cara de derrota. Minha cabeça estava um terror. Parecia que havia ocorrido uma guerra e só sobraram as ruínas. Você ficou sabendo que eles terminaram, me disse uma amiga. As ruínas agora eram um tribunal em minha mente. Pior que o de Nuremberg, garanto.
Minha mente ficava lembrando de todos os momentos em que eu e a Blindparents ficamos falando mal deles. Será que havíamos posto um olho neles? Será que havíamos mandado energia negativa ao relacionamento? Nada me fazia parar de pensar nisto. A Blindparents ficava me olhando na mesma forma que eu a ela. Havíamos conseguido o impensável. Fizemo-los terminarem. A única amostra de amor no mundo e havíamos estragado tudo. Éramos os piores vilões do mundo, e assim nos sentíamos.
Quando minha mente acalmou, resolvi perguntar a ela porque haviam terminado. Não éramos feitos um para o outro, me disse. Parece que estávamos brincando de namorar, complementou. Não estavam sérios um com o outro, é isto, eu disse. É, mais ou menos, por ai, ela finalizou.
Corri para contar a Blindparents. Não éramos os culpados. Apenas havíamos previsto algo. Graças a Deus, ela disse. Como nos sentíamos melhor. Por sentir isto, comecei a pensar se o relacionamento que eles tiveram, não era o que eu queria realmente. Talvez fosse, minha alma falou.
Talvez isto seja as energias negativas que atrapalham tudo. A inveja. Algo que tanto queremos e que só algumas pessoas conseguem sem grandes esforços, supomos. Talvez queremos as coisas para nós e não para os outros. Talvez sim, eu quisesse ser de novo amado diariamente. Talvez de novo paparicado ao telefone. Talvez de novo beijado enlouquecidamente. Talvez, talvez, talvez.

6 de novembro de 2009

O Preço de Todos Nós


Aula do professor Humberto. Acabamos de ver o filme “Quanto Vale Ou É Por Quilo?”. Adorei o filme. Vi cada segundo, desejando já ver o próximo. Quando o filme terminou, havia poucas pessoas na sala. Eu e mais seis, para falar a verdade. O professor, como sempre, disse que havia o necessário para uma boa conversa sobre o significado do filme. Todos nos rimos. Pensamos que, na verdade, poucos quiseram ficar para ver a aula. Clássica frase nas escolas brasileiras.
O professor começou a conversa. Fez um leve comentário do filme. Falou de como ele mostra que todos são mercadorias e fazem contratos mercantis uns com os outros, para conseguirem o que tanto querem. Nem pensam na alma, na ética. O filme faz um paralelo com o período colônia, disse. Ele mostra como não mudamos nada, desde aquela época, complementou. Fazemos com os outros o mesmo que os fazendeiros faziam com os escravos, filosofou.
Aquele simples ponto de vista me fez pensar nos relacionamentos. Será que todos nos somos meros objetos, com uma etiqueta de preço? Lembrei da vela e clássica frase sobre relacionamentos que minha mãe sempre diz. “A amizade é uma via de mão dupla, o que uma oferece, a outra tem que oferecer também”. Será que a própria amizade também era um negócio? O que um amigo oferece, o outro tem que oferecer obrigatoriamente, com a sanção de caso contrário, não receber mais nada? Como o filme, estes pensamentos acabaram com todos os meus valores humanos. Talvez fossemos meros bonecos à venda pelo melhor preço. Quem nos leva sabe o quanto pagou por nós e o que lhe traremos em retorno.
Mal havíamos começado o papo e a aula acabou. O que havia sobrado de nós até o fim do filme, foi embora com o fim da aula. Chamei o professor num canto e disse que gostaria de conversar com ele sobre o assunto, pois o filme havia me tocado. Ele disse para irmos juntos, que no caminho ficaríamos discutindo. Saímos da sala. Já no corredor começamos nossa discussão sócio-filosófica.
Comecei relacionando o filme ao fato de todos nós termos nossos preços. Relacionamos-nos com a intensão de conseguir algo, seja dinheiro, seja fama, seja carência, eu disse. Exatamente, o professor disse, fazer um contrato com todos, complementou. Igual ao contrato de Hobbes, ele relacionou, só que é comercial e não social, finalizou. Será que fazemos um contrato com nossos amigos, nossos parceiros, com todos? E, se sim, ele é mesmo comercial, com direito á quebra de contrato se desobedecida alguma parte dele?, pensei. Para variar, repensei sobre os meus relacionamentos, principalmente os que acabaram. Quanto aos namoros, havia ótimos argumentos contra desta teoria. Já nos relacionamentos puramente de amizade, nem tanto, a maioria , mas alguns foram sinceros.
Não ficou triste, ficou?, perguntou o professor. Em parte, respondi. Estava pensando se fazemos mesmo um contrato com todos, comentei. E não fazemos?, filosofou o professor. Olhe só a nossa sala, refletiu, todos os que ficam lá querem apenas passar de ano, não importando o meio, argumentou. Quando a sala estava escura e eu via com vocês o filme, a maior parte (ele estava sendo modesto, pois foi 90% da sala saiu neste instante) saiu sem nem disser por favor, finalizou argumentando com Maquiavel. Eu não professor, defendi-me, gosto mesmo de conversar com você, tem um papo tão legal e culto, argumentei. Obrigado, não sei nem o que disser, ele disse. Sua conversa também é legal, tenho gostado bastante dela, comentou, mas devia participar mais da aula, me advertiu. Não gosto muito de falar durante a aula, o pessoal fica meio que puto, demonstrei. Já até me pediram para me conter, comentei. Você não devia escutá-los, disse. Como bem vê, eles não estão muito empolgados com a faculdade, querem apenas as baladas, argumentou. É verdade, concordei.
Voltando ao papo, disse, será mesmo que temos de fazer este contrato? Sim, respondeu. Somos obrigados ou já está presente em nós, complementou. Apenas disfarçamo-los através de palavras mais doces, como amizade, amor. Tudo, na verdade, é um contrato, finalizou. Separamos-nos e fui para casa. Nem tive muita mente para lhe disser adeus, apenas sorri.
Fiquei pensando sobre o contrato. Talvez fossemos bonecos, cuja capa diz o que precisamos e o que oferecemos. Se assim for, eu seria um que diria “ofereço amor e sexo e em troca necessito de amor”. E assim, fiquei. Um boneco jogado numa loja chamada Sociedade Brasileira, a espera de alguém que me levasse e me desse o que eu tanto queria. Amor, simplesmente.

Crise de Abstinência


Nada melhor que aula às 7 horas da manhã. Com o corpo ainda dormindo, fui á aula. Não consegui ficar nem um minuto com os olhos abertos. Quando finalmente a aula terminou, sai para comer algo. Fui até a lanchonete vegetariana perto da faculdade. Lá encontrei com a Viggie, a doce vendedora dos salgados de sojas que tanto gosto. Ela me perguntou porque não havia passado nos dias passados lá. Falei que havia terminado meu perfeito namoro no domingo. Você também, ela disse. Ela havia terminado com o dela há uma semana já. Ela me disse que ele vivia bêbado. Terminou porque o sexo ficou ruim, mas também bêbado não se pode pedir grandes coisas. Este negócio de terminar namoro está se espalhando mais rápido que a gripe suína, comentou. Concordei com ela. Falei que precisávamos para de sair com pessoas solteiras, comentei, principalmente quando voltar a namorar, complementei. Ela riu, com o seu doce e meigo sorriso. Pedi um pastel de soja e um de palmito. Enquanto comia, ela me perguntou o que havia se passado para terminarmos.
Parei um pouco, pus o salgado de lado e lhe contei tudo. O telefonema, o pedido para que eu fosse morar com ele em São Paulo, o intimado para ou ir lá ou terminar. Tudo, nos mínimos detalhes. Há, é só uma fase, ela disse, logo ele te liga e vocês voltam. Falei que não havia volta. Expliquei que neste momento ele queria estabilidade, um cara para que todas as noites ele pudesse dormir ao lado. Eu não poderia oferecer isto a ele, eu afirmei. Não irei mudar toda a minha vida por um cara. Infelizmente eu não era tudo o que ele queria naquele momento. Ela concordou com a cabeça. Não sabia o que falar. A situação era mesmo complicada. Comentou que passou por isto umas mil vezes com o ex e sempre voltou. Comentei que eu era um cara sério, que havia dito isto á ele. Prometi a mim mesmo que não voltaria, disse á ela. Já havia voltado para ele uma vez, agora não há mais chance, complementei. Ficamos uns segundos sem conversar.
Quando ele começou a por uns doces no balcão, um me chamou a atenção. Era um merengue de chocolate com avelãs com frutose (para aqueles que não saibam, frutose é o açúcar das frutas, dissem que é mais saudável que o açúcar normal e o adoçante). Comi-o em uma colherada só. Estava uma delícia. Ela me serviu outro. Nossa, hoje você está triste, heim, disse, já comeu dois doces, comentou. Falei que estava em depressão, pois havia terminado um namoro. Ela falou da saudade que bate quando se termina. Dá uma vontade de ligar, ela disse.
Minha mente parou. Será que eu estava sentindo saudade do Hirh? Se não, o que seria aquilo que eu sentia? Mergulhei em mim mesmo tentando descobrir. Não era uma saudade em si, era mais o desapego. Comentei com a Viggie o que havia pensado. Há, é a dependência te consumindo, ela respondeu. Nestes momentos você tem que levantar a cabeça e seguir a vida, argumentou. Tem que sair e ir à luta. Há muito cara bonito ai, porque sofrer pelo ex, me fez refletir.
Será que eu estava sofrendo uma crise de abstinência, só que a minha droga seria o meu ex? E será que havia como eu sair dela? Pelo que Viggie havia dito, sim. E a única forma de sair era arranjando outro. Seria como todos dissem, para largar um vício, o melhor é arranjar outro mais saudável. Então, para sair da abstinência do amor, eu deveria arranjar outro namorado, outro amor, assim concluí. Viggie concordou comigo. Eu devia sair á luta, á caça de um outro homem. Havia tantos outros caras gostosos e gays ai no mundo e eu é que deveria sofrer por um egoísta? Não, minhas amigas viviam me dissendo. Sim, minha mente falava, pois poderia haver outros, mas nenhum conseguiria me dar o que o Hirh me dava, amor, puro e monogâmico amor. Pensar nisto me gerou mais depressão ainda. Era a abstinência, eu fiquei me repetindo.
Acabei o segundo doce. Senti-me pior que nunca. Sentia falta dele e o queria. Só mais um pouco, me disse como todo bom viciado. Só mais um pouco e paro, prometi a Deus. Neste momento, percebi que eu era um viciado. E o pior, estava com abstinência. Se eu provasse só mais um pouco dele, nunca conseguiria superá-lo. Então, como a música “Na Sua Estante” da Pitty, falei “só por hoje não vou tomar minha dose de você/ e esta abstinência uma hora vai passar”.
Fiquei sentado, na portaria do meu edifício, fumando meu cigarro. Fiquei pensando nos bons momentos que tivemos, enquanto olhava para o número dele no meu celular. Apertei o botão de deletar. Seu numero se foi, e com ele a minha saudade também iria. Só por agora ele não existiria. Hoje começa a minha recuperação. Por agora não mais o tomarei. E sei que a minha vontade de tê-lo um dia vai passar.

Eu, Deus e o Deserto


Enquanto eu estava no grupinho religioso, ouvi uma parte da bíblia, que comentavam naquele momento. Falava sobre Jesus e sua ida ao deserto com o Espírito-Santo. Ela me chamou a atenção. Fiquei pensando em como seria se eu encontrasse com Deus, e este me levasse para conversar num deserto. Foi pensando nisto que escrevi o diálogo abaixo.

“Deus – Bem vindo! – com voz celestial.
Eu – Quem é você?
D – Eu sou Deus, amado filho.
Eu – Sério?! Nossa, eu tenho que parar de beber na segunda. Já esta afetando os meus neurônios. Mas, sério mesmo, você é Deus?
D – Sou sim. Por que duvidas tanto? Há, tá. Não precisa nem responder. Sei muito bem de seu ceticismo. Não só vi, como ouvi muitas coisas ruins que disse ao meu respeito. Bonito, heim?! – repreendendo.
Eu – Eu não acredito. Oh, aquela fala que disse á um mês foi puramente sacana. Eu não sabia que você esta ouvindo. Sabe como é. Meu namorado adora quando digo vulgaridades na cama – no mesmo tom que uma criança se desculpa por uma to feio, só que numa velocidade mais alta.
D – O quê? O que é que você está dizendo? – sem compreender nada.
Eu – Nada, nada – disfarçando – Continue.
D – Bem, continuando. O que é que eu dizia? É. Eu ouvi tudo o que disse na vida inteira.
Eu – Sei – bem baixinho.
D – Hurg – tossindo – E foi por cansar de te escutar, que resolvi te chamar aqui para conversarmos.
Eu – O quê? Quer disser que eu morri? – num tom triste.
D – Não. Você, por acaso, ouviu o que eu disse? – tom raivoso.
Eu – Sim – mentindo – Algo com chamar aqui e conversar, além de estar cansado de mim – disfarçando saber sobre o assunto.
D – Sim, mais ou menos – sem saber responder – Bem, sei que tem uma pergunta para me fazer. Dar-te-ei a liberdade de fazê-la.
Eu – Desde quando eu possuo apenas uma pergunta? – tom irônico – Á esta hora já devia saber muito bem que eu gosto de coisas que vem em mais que dupla.
D – É, eu sei, mas sei que apenas uma te atormenta a alma.
Eu – Não só uma, umas 500 e olhe lá – tom convencido.
D – Tá, mas só te concedo uma. É pegar ou largar – tom bem raivoso.
Eu – Nossa. Tá bem. Mas são tantas – tom indiferente.
D – Mas só uma, te digo. Apenas uma e mais nenhuma – tom mais raivoso.
Eu – Tá, eu sei – tom chateado – Por acaso você sabe que disser isto me deixa mais nervoso ainda? – tom irritante.
D – Eu sei, eu sei – tom indiferente.
Eu – Bem, de todas as perguntas que afligem a minha pobre alma – choramingando – uma me importa mais.
D – Finalmente, então me diga meu filho. Mas fale de coração – tom celestial.
Eu – Qual é o sentido da vida? – tom curioso e ansioso.
D – Já esperava isto. Bem, vou te levar para um lugar. Acompanhe-me.
Eu – Tá bem. Não é longe não, é? – tom curioso.
Deus – Apenas o necessário para receber a resposta.
Eu – Ué. Você não disse que iria me responder? – tom provocativo.
D – E vou. Eu criei tudo o que vê. E é nelas que estão as minhas respostas – tom convencido.
Eu – Tá, né. Fazer o quê?! – tom de aceitação.
D – Então, vamos?
Eu – Vamos.
Chegamos ao lugar. Era um deserto, daqueles mais secos e sem vida. Enquanto olho a morta paisagem, Deus me dá a mão.
D – Vamos dar uma andada?
Eu – Vamos, mas antes gostaria de beber algo. Estou morto de sede.
D – Por acaso você está vendo algo para beber? – tom satírico.
Eu – Para falar a verdade não – tom desapontado – mas você é Deus. Pode fazê-la, não? – tom misericordioso.
D – Quem faz algo se transformar em outra é o meu filho. Peça a ele – tom bravo.
Eu – E por falar no filho do Senhor, onde é que ele está? – tom irônico.
D – Sei lá. Mandei ele para a terra uns milênios atrás e até hoje não o vi mais. Já me disseram que ele está dentro de todos os humanos. Ele sempre foi meio adepto do estilo hippie. Sabe? – tom pensativo.
Eu – Sei – tom preocupado e sem saber nada na realidade.
D – Bem, vamos continuar nossa caminhada? Já descansou bastante – tom celestial.
Eu – Tá. Mas espero que no caminho haja uma venda, um shopping, um restaurante, algo onde eu possa beber um copo de água que seja. Estou morrendo de sede – tom moribundo.
D – Você verá – rindo.
Depois de mais uma eternidade andando num deserto mais seco que peito de velha e mais morto de corpo de puta.
Eu – Deus, eu não agüento mais – tom cansativo – Estou todo suado, morrendo de sede e não consigo mais andar nem um passo sequer. Já cheguei até o meu último cigarro – tom melodramático – Não dou nem mais um passo até que me consiga cigarros e bebidas – tom implicante.
D – Como você conseguiu passar com cigarros? – tom confuso.
Eu – Bem, São Pedro tentou me tomar, mas falei para ele experimentar um antes de julgar – tom convincente.
D – É mesmo? – tom brincalhão – Não é a toa que ele tava meio lerdo e depois ficou super irritado. Tenho que melhorar a segurança, senão daqui a pouco chega aqui até os políticos. Mas, tenha calma. Logo, logo você vai ter a resposta de sua pergunta. Não desista assim tão fácil.
Eu – Não desista assim tão fácil – tom extremamente implicante – Fácil para você falar. Você não sente nem fome nem sede.
D – Engano o seu. Sinto sede de justiça e fome de solidariedade. Fácil para eu falar. Fiz as coisas mais belas e vocês conseguiram transformá-las nas piores – tom raivoso.
Eu – Tá, me convenceu. Vamos logo antes que você resolva inundar a terra de novo, devido a este papo religioso.
D – Papo religioso? Eu fui foi realista – tom sério.
Eu – Tá. O que seja. Vamos então e acabe com este papo de uma vez – tom estressado.
Mais uma eternidade depois, o que para mim pareceu umas três, principalmente sem cigarro. A vista era a mesma. Um deserto seco e totalmente morto.
Eu – Deus, eu não agüento mais. É sério mesmo. Mais um passo e morrerei. Nada sobrará de minha carne a não ser a posição mortuária que será a de um homem desesperado por um copo de água e um cigarro – tom mais melancólico ainda.
D – Não, vamos – tom incentivador – Acho que logo você verá a sua resposta.
Eu – Mais um pouco e definitivamente morrerei. Eu cansei, sério. Não há como você me contar? – tom insistido – Sei que adora passagens triunfais, mas me poupe de mais uma destas belas e cientificamente impossíveis histórias bíblicas – tom chateado e cansado.
D – Está bem. Darei-te uma dica, mas unicamente pelo fato de ter um coração virtuoso que tanto tenta abafar – tom angelical.
Eu – E como é virtuoso, o meu Senhor – tom de valorização à algo sem valor.
D – Aí vai. Olhe ao seu redor – tom celestial.
Eu – O que? O que há ao meu redor? – tom curioso.
Passou algum tempo. Procurei insistentemente por algo. Nada havia naquele morto deserto. Enquanto isto, observava Deus à mim e dada boas risadas ao ver a cega tentativa de seu convidado.
Eu – Deus, já olhei em tudo o que é lugar em que minha vista alcança. Nada vi que responde-se minha pergunta – tom decepcionado – Apenas vi as minhas pegadas na areia. Por falar nelas, o vento está apagando-as, e isto está me deixando com medo – tom temeroso.
D – Este é o mesmo sentimento de temor que vejo nos olhos dos que morrem e vem em minha presença – tom paternal.
Eu – Agora sim. Entendi a resposta – tom contente.
D – Sério – tom cômico – Sabia que ia conseguir em algum momento, mas achava que, com a sua absurda inteligência, conseguiria antes – tom satírico e irônico.
Eu – Sim – tom raivoso – Eu consegui. A vida, não só minha, como de todos, é a areia do deserto. Minhas pegadas são as minhas ações. O vento é o tempo. Conforme andei, deixei meus rastros nela. O vento as está apagando, umas rapidamente e outras vagarosamente – tom filosófico.
D – Isto aí, você está pegando o espírito da coisa – tom contente.
Eu – Me deixa acabar?! – tom irritante para uma pergunta retórica – Conforme as minhas ações são prensadas na vida dos outros o tempo tenta desfazê-las. Mas algumas resistem. Está ai a razão da vida. Fazer com que as minhas ações sejam prensadas na vida dos outros de uma forma que nem o tempo consiga apagá-las – tom convencido.
D – Você realmente acha isto? – tom questionador – Você também, não acha que a vida é apenas um deserto sem significado?
Eu – Não. A vida não pode só isto. Um vazio sem sentido.
D – Então, porque sempre acha que ela é assim? – tom super questionador.
Eu – Não acho mais – tom perfeito.
D – Então consegui o que queria – tom satisfeito.
Eu – Ué, o que tanto queria Senhor? – tom questionadoramente chato – Estava só me usando?
D – Não. Queria te mostrar que há mais na vida que simplesmente acha. Tudo que faz tem uma razão. Deixa uma marca. O tempo pode, ás vezes, apagá-la, mas nem sempre. Tome cuidado com suas ações. Elas marcam como o ferro quente marca a pele, como seus passos marcam a areia – tom celeste.
Eu – Não se preocupe – tom concordado.”

Não sei o porquê de ter escrito isto. Acho que fui iluminado, seja lá por quem. Talvez fosse o que eu precisava neste momento. Precisava de uma razão para continuar. Talvez a vida seja como a areia e nossas ações como os pegadas. Devemos ter cuidado, pois podemos ferir alguém de forma que o tempo não apague. Devemos é marcar a vida de todas as pessoas de uma forma boa, em que elas sempre se lembraram de nós, da melhor forma possível. Isto sim, consegui provar. Todos os meus namorados haviam me marcado. Todos os meus amigos também. Sempre de uma forma a não se apagarem com o vento. Cresci muito graças á muitas pessoas que pisaram em minha vida, tanto de formas boas como ruins. Assim é que me tornei a pessoa que sou. Uma pessoa abençoada por ter outras que pisam em minha vida, sempre torcendo que seja de uma forma abençoada.
Apresentei o diálogo ao grupo religioso. Todos ficaram espantados, no bom sentido. Nunca imaginariam que uma pessoa como eu, totalmente cética, poderia escrever algo tão profundo e revelador assim. Às vezes nos enganamos com as aparências. Julgamos a capa, ao invéz do conteúdo. Eu havia julgado errado. Sempre achei que Deus era um ser chato e irritante. Talvez ele pudesse ser uma pessoa interessante e cômica. Porque, não seria? Se eu pude escrever um texto tão revelador, talvez ele fosse um ser engraçado e amigo. Um dia saberei, quem sabe. Basta ele me chamar para mais uma caminhada. E só aceitarei se prometer cigarros e bebidas. Quem sabe eu não o chamo para caminhar comigo, enquanto lhe mostro o porquê os homens serem assim, transformadores de coisas boas em coisas ruins. Será que ele aceitaria? Pelo menos eu não o levaria á um deserto seco e sem vida.