6 de novembro de 2009

O Preço de Todos Nós


Aula do professor Humberto. Acabamos de ver o filme “Quanto Vale Ou É Por Quilo?”. Adorei o filme. Vi cada segundo, desejando já ver o próximo. Quando o filme terminou, havia poucas pessoas na sala. Eu e mais seis, para falar a verdade. O professor, como sempre, disse que havia o necessário para uma boa conversa sobre o significado do filme. Todos nos rimos. Pensamos que, na verdade, poucos quiseram ficar para ver a aula. Clássica frase nas escolas brasileiras.
O professor começou a conversa. Fez um leve comentário do filme. Falou de como ele mostra que todos são mercadorias e fazem contratos mercantis uns com os outros, para conseguirem o que tanto querem. Nem pensam na alma, na ética. O filme faz um paralelo com o período colônia, disse. Ele mostra como não mudamos nada, desde aquela época, complementou. Fazemos com os outros o mesmo que os fazendeiros faziam com os escravos, filosofou.
Aquele simples ponto de vista me fez pensar nos relacionamentos. Será que todos nos somos meros objetos, com uma etiqueta de preço? Lembrei da vela e clássica frase sobre relacionamentos que minha mãe sempre diz. “A amizade é uma via de mão dupla, o que uma oferece, a outra tem que oferecer também”. Será que a própria amizade também era um negócio? O que um amigo oferece, o outro tem que oferecer obrigatoriamente, com a sanção de caso contrário, não receber mais nada? Como o filme, estes pensamentos acabaram com todos os meus valores humanos. Talvez fossemos meros bonecos à venda pelo melhor preço. Quem nos leva sabe o quanto pagou por nós e o que lhe traremos em retorno.
Mal havíamos começado o papo e a aula acabou. O que havia sobrado de nós até o fim do filme, foi embora com o fim da aula. Chamei o professor num canto e disse que gostaria de conversar com ele sobre o assunto, pois o filme havia me tocado. Ele disse para irmos juntos, que no caminho ficaríamos discutindo. Saímos da sala. Já no corredor começamos nossa discussão sócio-filosófica.
Comecei relacionando o filme ao fato de todos nós termos nossos preços. Relacionamos-nos com a intensão de conseguir algo, seja dinheiro, seja fama, seja carência, eu disse. Exatamente, o professor disse, fazer um contrato com todos, complementou. Igual ao contrato de Hobbes, ele relacionou, só que é comercial e não social, finalizou. Será que fazemos um contrato com nossos amigos, nossos parceiros, com todos? E, se sim, ele é mesmo comercial, com direito á quebra de contrato se desobedecida alguma parte dele?, pensei. Para variar, repensei sobre os meus relacionamentos, principalmente os que acabaram. Quanto aos namoros, havia ótimos argumentos contra desta teoria. Já nos relacionamentos puramente de amizade, nem tanto, a maioria , mas alguns foram sinceros.
Não ficou triste, ficou?, perguntou o professor. Em parte, respondi. Estava pensando se fazemos mesmo um contrato com todos, comentei. E não fazemos?, filosofou o professor. Olhe só a nossa sala, refletiu, todos os que ficam lá querem apenas passar de ano, não importando o meio, argumentou. Quando a sala estava escura e eu via com vocês o filme, a maior parte (ele estava sendo modesto, pois foi 90% da sala saiu neste instante) saiu sem nem disser por favor, finalizou argumentando com Maquiavel. Eu não professor, defendi-me, gosto mesmo de conversar com você, tem um papo tão legal e culto, argumentei. Obrigado, não sei nem o que disser, ele disse. Sua conversa também é legal, tenho gostado bastante dela, comentou, mas devia participar mais da aula, me advertiu. Não gosto muito de falar durante a aula, o pessoal fica meio que puto, demonstrei. Já até me pediram para me conter, comentei. Você não devia escutá-los, disse. Como bem vê, eles não estão muito empolgados com a faculdade, querem apenas as baladas, argumentou. É verdade, concordei.
Voltando ao papo, disse, será mesmo que temos de fazer este contrato? Sim, respondeu. Somos obrigados ou já está presente em nós, complementou. Apenas disfarçamo-los através de palavras mais doces, como amizade, amor. Tudo, na verdade, é um contrato, finalizou. Separamos-nos e fui para casa. Nem tive muita mente para lhe disser adeus, apenas sorri.
Fiquei pensando sobre o contrato. Talvez fossemos bonecos, cuja capa diz o que precisamos e o que oferecemos. Se assim for, eu seria um que diria “ofereço amor e sexo e em troca necessito de amor”. E assim, fiquei. Um boneco jogado numa loja chamada Sociedade Brasileira, a espera de alguém que me levasse e me desse o que eu tanto queria. Amor, simplesmente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário