11 de novembro de 2009

Sob Álcool e Amigos


Dez horas da noite de Sexta-Feira é hora do Lust, um bar que fica em frente à faculdade. A aula havia acabado, mas a farra nem bem tinha iniciado. Fui com a Blindparents. Compramos algumas cervejas e ficamos tomando. Muitos colegas de sala estavam lá, e não eram poucos. Sexta-feira já havia virado o dia do Lust. Era sagrado e sue comparecimento quase obrigatório para a perpetuação da vida social.
Mesmo tendo conversado com outros colegas, eu a Blindparents ficamos conversando mais entre nós mesmos. Falamos sobre nossos fracassados relacionamentos. Ela me contou mais sobre o ex dela e a briga, gerada por um vídeo-pornô caseiro dele recebendo um boquete de uma putinha que pegou numa noite. Eu contei cobre o Hirh e a intimação de ter de morar com ele em São Paulo. Ficamos rindo de nossos ex, dos maus momentos e de seus defeitos. Ficamos tendo mostrar, um para o outro, que amar não vale nada. É uma perda de tempo, eu disse. E não é?!, refletiu, perdemos nosso tempo á procura de algo bom e só encontramos merda. Ficamos assim, apenas pelo fato de uma colega nossa de sala estar namorando um outro colega. Eles nunca vão dar certo, ela disse. Lógico, concordei, ele pegava ela enquanto namorava com outra ai, complementei. Eles não duram, eu lhe digo, me disse. Não mesmo, logo ele começa a pegar outra aí e termina com ela para namorar a outra, eu disse.
E assim ficamos. Olhando para eles e falando mal de todos os relacionamentos, principalmente o deles. Estávamos mesmo putos com todo e qualquer relacionamento. E eles, há, eles. Eles eram a prova de que nós é que havíamos errado. Eram a prova de como o amor poderia existir. Mas não poderíamos aceitar. Então pusemos um olho horrível neles. E falamos mal. Falar mal e por olho neles, era isto que fazíamos. Era tudo que poderíamos fazer.
Isto me fez pensar. Como eu sentia falta de algo ao meu lado. Queria voltar o namoro. Gostaria de ter a chance de voltar ao passado e apenas disser ao Hirh que iria sim a SP e viveria ao lado dele. Mas não poderia. Tenho orgulho demais para isto. Teria de viver com a perda. Ele queria algo que não poderia dar neste momento. Talvez num futuro distante, que ele não gostaria de esperar.
A noite foi um desastre. Ficamos bêbados e vomitamos. No outro dia, aula às 7 horas da matina. Consegui ir, mas com uma cara de derrota. Minha cabeça estava um terror. Parecia que havia ocorrido uma guerra e só sobraram as ruínas. Você ficou sabendo que eles terminaram, me disse uma amiga. As ruínas agora eram um tribunal em minha mente. Pior que o de Nuremberg, garanto.
Minha mente ficava lembrando de todos os momentos em que eu e a Blindparents ficamos falando mal deles. Será que havíamos posto um olho neles? Será que havíamos mandado energia negativa ao relacionamento? Nada me fazia parar de pensar nisto. A Blindparents ficava me olhando na mesma forma que eu a ela. Havíamos conseguido o impensável. Fizemo-los terminarem. A única amostra de amor no mundo e havíamos estragado tudo. Éramos os piores vilões do mundo, e assim nos sentíamos.
Quando minha mente acalmou, resolvi perguntar a ela porque haviam terminado. Não éramos feitos um para o outro, me disse. Parece que estávamos brincando de namorar, complementou. Não estavam sérios um com o outro, é isto, eu disse. É, mais ou menos, por ai, ela finalizou.
Corri para contar a Blindparents. Não éramos os culpados. Apenas havíamos previsto algo. Graças a Deus, ela disse. Como nos sentíamos melhor. Por sentir isto, comecei a pensar se o relacionamento que eles tiveram, não era o que eu queria realmente. Talvez fosse, minha alma falou.
Talvez isto seja as energias negativas que atrapalham tudo. A inveja. Algo que tanto queremos e que só algumas pessoas conseguem sem grandes esforços, supomos. Talvez queremos as coisas para nós e não para os outros. Talvez sim, eu quisesse ser de novo amado diariamente. Talvez de novo paparicado ao telefone. Talvez de novo beijado enlouquecidamente. Talvez, talvez, talvez.

6 de novembro de 2009

O Preço de Todos Nós


Aula do professor Humberto. Acabamos de ver o filme “Quanto Vale Ou É Por Quilo?”. Adorei o filme. Vi cada segundo, desejando já ver o próximo. Quando o filme terminou, havia poucas pessoas na sala. Eu e mais seis, para falar a verdade. O professor, como sempre, disse que havia o necessário para uma boa conversa sobre o significado do filme. Todos nos rimos. Pensamos que, na verdade, poucos quiseram ficar para ver a aula. Clássica frase nas escolas brasileiras.
O professor começou a conversa. Fez um leve comentário do filme. Falou de como ele mostra que todos são mercadorias e fazem contratos mercantis uns com os outros, para conseguirem o que tanto querem. Nem pensam na alma, na ética. O filme faz um paralelo com o período colônia, disse. Ele mostra como não mudamos nada, desde aquela época, complementou. Fazemos com os outros o mesmo que os fazendeiros faziam com os escravos, filosofou.
Aquele simples ponto de vista me fez pensar nos relacionamentos. Será que todos nos somos meros objetos, com uma etiqueta de preço? Lembrei da vela e clássica frase sobre relacionamentos que minha mãe sempre diz. “A amizade é uma via de mão dupla, o que uma oferece, a outra tem que oferecer também”. Será que a própria amizade também era um negócio? O que um amigo oferece, o outro tem que oferecer obrigatoriamente, com a sanção de caso contrário, não receber mais nada? Como o filme, estes pensamentos acabaram com todos os meus valores humanos. Talvez fossemos meros bonecos à venda pelo melhor preço. Quem nos leva sabe o quanto pagou por nós e o que lhe traremos em retorno.
Mal havíamos começado o papo e a aula acabou. O que havia sobrado de nós até o fim do filme, foi embora com o fim da aula. Chamei o professor num canto e disse que gostaria de conversar com ele sobre o assunto, pois o filme havia me tocado. Ele disse para irmos juntos, que no caminho ficaríamos discutindo. Saímos da sala. Já no corredor começamos nossa discussão sócio-filosófica.
Comecei relacionando o filme ao fato de todos nós termos nossos preços. Relacionamos-nos com a intensão de conseguir algo, seja dinheiro, seja fama, seja carência, eu disse. Exatamente, o professor disse, fazer um contrato com todos, complementou. Igual ao contrato de Hobbes, ele relacionou, só que é comercial e não social, finalizou. Será que fazemos um contrato com nossos amigos, nossos parceiros, com todos? E, se sim, ele é mesmo comercial, com direito á quebra de contrato se desobedecida alguma parte dele?, pensei. Para variar, repensei sobre os meus relacionamentos, principalmente os que acabaram. Quanto aos namoros, havia ótimos argumentos contra desta teoria. Já nos relacionamentos puramente de amizade, nem tanto, a maioria , mas alguns foram sinceros.
Não ficou triste, ficou?, perguntou o professor. Em parte, respondi. Estava pensando se fazemos mesmo um contrato com todos, comentei. E não fazemos?, filosofou o professor. Olhe só a nossa sala, refletiu, todos os que ficam lá querem apenas passar de ano, não importando o meio, argumentou. Quando a sala estava escura e eu via com vocês o filme, a maior parte (ele estava sendo modesto, pois foi 90% da sala saiu neste instante) saiu sem nem disser por favor, finalizou argumentando com Maquiavel. Eu não professor, defendi-me, gosto mesmo de conversar com você, tem um papo tão legal e culto, argumentei. Obrigado, não sei nem o que disser, ele disse. Sua conversa também é legal, tenho gostado bastante dela, comentou, mas devia participar mais da aula, me advertiu. Não gosto muito de falar durante a aula, o pessoal fica meio que puto, demonstrei. Já até me pediram para me conter, comentei. Você não devia escutá-los, disse. Como bem vê, eles não estão muito empolgados com a faculdade, querem apenas as baladas, argumentou. É verdade, concordei.
Voltando ao papo, disse, será mesmo que temos de fazer este contrato? Sim, respondeu. Somos obrigados ou já está presente em nós, complementou. Apenas disfarçamo-los através de palavras mais doces, como amizade, amor. Tudo, na verdade, é um contrato, finalizou. Separamos-nos e fui para casa. Nem tive muita mente para lhe disser adeus, apenas sorri.
Fiquei pensando sobre o contrato. Talvez fossemos bonecos, cuja capa diz o que precisamos e o que oferecemos. Se assim for, eu seria um que diria “ofereço amor e sexo e em troca necessito de amor”. E assim, fiquei. Um boneco jogado numa loja chamada Sociedade Brasileira, a espera de alguém que me levasse e me desse o que eu tanto queria. Amor, simplesmente.

Crise de Abstinência


Nada melhor que aula às 7 horas da manhã. Com o corpo ainda dormindo, fui á aula. Não consegui ficar nem um minuto com os olhos abertos. Quando finalmente a aula terminou, sai para comer algo. Fui até a lanchonete vegetariana perto da faculdade. Lá encontrei com a Viggie, a doce vendedora dos salgados de sojas que tanto gosto. Ela me perguntou porque não havia passado nos dias passados lá. Falei que havia terminado meu perfeito namoro no domingo. Você também, ela disse. Ela havia terminado com o dela há uma semana já. Ela me disse que ele vivia bêbado. Terminou porque o sexo ficou ruim, mas também bêbado não se pode pedir grandes coisas. Este negócio de terminar namoro está se espalhando mais rápido que a gripe suína, comentou. Concordei com ela. Falei que precisávamos para de sair com pessoas solteiras, comentei, principalmente quando voltar a namorar, complementei. Ela riu, com o seu doce e meigo sorriso. Pedi um pastel de soja e um de palmito. Enquanto comia, ela me perguntou o que havia se passado para terminarmos.
Parei um pouco, pus o salgado de lado e lhe contei tudo. O telefonema, o pedido para que eu fosse morar com ele em São Paulo, o intimado para ou ir lá ou terminar. Tudo, nos mínimos detalhes. Há, é só uma fase, ela disse, logo ele te liga e vocês voltam. Falei que não havia volta. Expliquei que neste momento ele queria estabilidade, um cara para que todas as noites ele pudesse dormir ao lado. Eu não poderia oferecer isto a ele, eu afirmei. Não irei mudar toda a minha vida por um cara. Infelizmente eu não era tudo o que ele queria naquele momento. Ela concordou com a cabeça. Não sabia o que falar. A situação era mesmo complicada. Comentou que passou por isto umas mil vezes com o ex e sempre voltou. Comentei que eu era um cara sério, que havia dito isto á ele. Prometi a mim mesmo que não voltaria, disse á ela. Já havia voltado para ele uma vez, agora não há mais chance, complementei. Ficamos uns segundos sem conversar.
Quando ele começou a por uns doces no balcão, um me chamou a atenção. Era um merengue de chocolate com avelãs com frutose (para aqueles que não saibam, frutose é o açúcar das frutas, dissem que é mais saudável que o açúcar normal e o adoçante). Comi-o em uma colherada só. Estava uma delícia. Ela me serviu outro. Nossa, hoje você está triste, heim, disse, já comeu dois doces, comentou. Falei que estava em depressão, pois havia terminado um namoro. Ela falou da saudade que bate quando se termina. Dá uma vontade de ligar, ela disse.
Minha mente parou. Será que eu estava sentindo saudade do Hirh? Se não, o que seria aquilo que eu sentia? Mergulhei em mim mesmo tentando descobrir. Não era uma saudade em si, era mais o desapego. Comentei com a Viggie o que havia pensado. Há, é a dependência te consumindo, ela respondeu. Nestes momentos você tem que levantar a cabeça e seguir a vida, argumentou. Tem que sair e ir à luta. Há muito cara bonito ai, porque sofrer pelo ex, me fez refletir.
Será que eu estava sofrendo uma crise de abstinência, só que a minha droga seria o meu ex? E será que havia como eu sair dela? Pelo que Viggie havia dito, sim. E a única forma de sair era arranjando outro. Seria como todos dissem, para largar um vício, o melhor é arranjar outro mais saudável. Então, para sair da abstinência do amor, eu deveria arranjar outro namorado, outro amor, assim concluí. Viggie concordou comigo. Eu devia sair á luta, á caça de um outro homem. Havia tantos outros caras gostosos e gays ai no mundo e eu é que deveria sofrer por um egoísta? Não, minhas amigas viviam me dissendo. Sim, minha mente falava, pois poderia haver outros, mas nenhum conseguiria me dar o que o Hirh me dava, amor, puro e monogâmico amor. Pensar nisto me gerou mais depressão ainda. Era a abstinência, eu fiquei me repetindo.
Acabei o segundo doce. Senti-me pior que nunca. Sentia falta dele e o queria. Só mais um pouco, me disse como todo bom viciado. Só mais um pouco e paro, prometi a Deus. Neste momento, percebi que eu era um viciado. E o pior, estava com abstinência. Se eu provasse só mais um pouco dele, nunca conseguiria superá-lo. Então, como a música “Na Sua Estante” da Pitty, falei “só por hoje não vou tomar minha dose de você/ e esta abstinência uma hora vai passar”.
Fiquei sentado, na portaria do meu edifício, fumando meu cigarro. Fiquei pensando nos bons momentos que tivemos, enquanto olhava para o número dele no meu celular. Apertei o botão de deletar. Seu numero se foi, e com ele a minha saudade também iria. Só por agora ele não existiria. Hoje começa a minha recuperação. Por agora não mais o tomarei. E sei que a minha vontade de tê-lo um dia vai passar.

Eu, Deus e o Deserto


Enquanto eu estava no grupinho religioso, ouvi uma parte da bíblia, que comentavam naquele momento. Falava sobre Jesus e sua ida ao deserto com o Espírito-Santo. Ela me chamou a atenção. Fiquei pensando em como seria se eu encontrasse com Deus, e este me levasse para conversar num deserto. Foi pensando nisto que escrevi o diálogo abaixo.

“Deus – Bem vindo! – com voz celestial.
Eu – Quem é você?
D – Eu sou Deus, amado filho.
Eu – Sério?! Nossa, eu tenho que parar de beber na segunda. Já esta afetando os meus neurônios. Mas, sério mesmo, você é Deus?
D – Sou sim. Por que duvidas tanto? Há, tá. Não precisa nem responder. Sei muito bem de seu ceticismo. Não só vi, como ouvi muitas coisas ruins que disse ao meu respeito. Bonito, heim?! – repreendendo.
Eu – Eu não acredito. Oh, aquela fala que disse á um mês foi puramente sacana. Eu não sabia que você esta ouvindo. Sabe como é. Meu namorado adora quando digo vulgaridades na cama – no mesmo tom que uma criança se desculpa por uma to feio, só que numa velocidade mais alta.
D – O quê? O que é que você está dizendo? – sem compreender nada.
Eu – Nada, nada – disfarçando – Continue.
D – Bem, continuando. O que é que eu dizia? É. Eu ouvi tudo o que disse na vida inteira.
Eu – Sei – bem baixinho.
D – Hurg – tossindo – E foi por cansar de te escutar, que resolvi te chamar aqui para conversarmos.
Eu – O quê? Quer disser que eu morri? – num tom triste.
D – Não. Você, por acaso, ouviu o que eu disse? – tom raivoso.
Eu – Sim – mentindo – Algo com chamar aqui e conversar, além de estar cansado de mim – disfarçando saber sobre o assunto.
D – Sim, mais ou menos – sem saber responder – Bem, sei que tem uma pergunta para me fazer. Dar-te-ei a liberdade de fazê-la.
Eu – Desde quando eu possuo apenas uma pergunta? – tom irônico – Á esta hora já devia saber muito bem que eu gosto de coisas que vem em mais que dupla.
D – É, eu sei, mas sei que apenas uma te atormenta a alma.
Eu – Não só uma, umas 500 e olhe lá – tom convencido.
D – Tá, mas só te concedo uma. É pegar ou largar – tom bem raivoso.
Eu – Nossa. Tá bem. Mas são tantas – tom indiferente.
D – Mas só uma, te digo. Apenas uma e mais nenhuma – tom mais raivoso.
Eu – Tá, eu sei – tom chateado – Por acaso você sabe que disser isto me deixa mais nervoso ainda? – tom irritante.
D – Eu sei, eu sei – tom indiferente.
Eu – Bem, de todas as perguntas que afligem a minha pobre alma – choramingando – uma me importa mais.
D – Finalmente, então me diga meu filho. Mas fale de coração – tom celestial.
Eu – Qual é o sentido da vida? – tom curioso e ansioso.
D – Já esperava isto. Bem, vou te levar para um lugar. Acompanhe-me.
Eu – Tá bem. Não é longe não, é? – tom curioso.
Deus – Apenas o necessário para receber a resposta.
Eu – Ué. Você não disse que iria me responder? – tom provocativo.
D – E vou. Eu criei tudo o que vê. E é nelas que estão as minhas respostas – tom convencido.
Eu – Tá, né. Fazer o quê?! – tom de aceitação.
D – Então, vamos?
Eu – Vamos.
Chegamos ao lugar. Era um deserto, daqueles mais secos e sem vida. Enquanto olho a morta paisagem, Deus me dá a mão.
D – Vamos dar uma andada?
Eu – Vamos, mas antes gostaria de beber algo. Estou morto de sede.
D – Por acaso você está vendo algo para beber? – tom satírico.
Eu – Para falar a verdade não – tom desapontado – mas você é Deus. Pode fazê-la, não? – tom misericordioso.
D – Quem faz algo se transformar em outra é o meu filho. Peça a ele – tom bravo.
Eu – E por falar no filho do Senhor, onde é que ele está? – tom irônico.
D – Sei lá. Mandei ele para a terra uns milênios atrás e até hoje não o vi mais. Já me disseram que ele está dentro de todos os humanos. Ele sempre foi meio adepto do estilo hippie. Sabe? – tom pensativo.
Eu – Sei – tom preocupado e sem saber nada na realidade.
D – Bem, vamos continuar nossa caminhada? Já descansou bastante – tom celestial.
Eu – Tá. Mas espero que no caminho haja uma venda, um shopping, um restaurante, algo onde eu possa beber um copo de água que seja. Estou morrendo de sede – tom moribundo.
D – Você verá – rindo.
Depois de mais uma eternidade andando num deserto mais seco que peito de velha e mais morto de corpo de puta.
Eu – Deus, eu não agüento mais – tom cansativo – Estou todo suado, morrendo de sede e não consigo mais andar nem um passo sequer. Já cheguei até o meu último cigarro – tom melodramático – Não dou nem mais um passo até que me consiga cigarros e bebidas – tom implicante.
D – Como você conseguiu passar com cigarros? – tom confuso.
Eu – Bem, São Pedro tentou me tomar, mas falei para ele experimentar um antes de julgar – tom convincente.
D – É mesmo? – tom brincalhão – Não é a toa que ele tava meio lerdo e depois ficou super irritado. Tenho que melhorar a segurança, senão daqui a pouco chega aqui até os políticos. Mas, tenha calma. Logo, logo você vai ter a resposta de sua pergunta. Não desista assim tão fácil.
Eu – Não desista assim tão fácil – tom extremamente implicante – Fácil para você falar. Você não sente nem fome nem sede.
D – Engano o seu. Sinto sede de justiça e fome de solidariedade. Fácil para eu falar. Fiz as coisas mais belas e vocês conseguiram transformá-las nas piores – tom raivoso.
Eu – Tá, me convenceu. Vamos logo antes que você resolva inundar a terra de novo, devido a este papo religioso.
D – Papo religioso? Eu fui foi realista – tom sério.
Eu – Tá. O que seja. Vamos então e acabe com este papo de uma vez – tom estressado.
Mais uma eternidade depois, o que para mim pareceu umas três, principalmente sem cigarro. A vista era a mesma. Um deserto seco e totalmente morto.
Eu – Deus, eu não agüento mais. É sério mesmo. Mais um passo e morrerei. Nada sobrará de minha carne a não ser a posição mortuária que será a de um homem desesperado por um copo de água e um cigarro – tom mais melancólico ainda.
D – Não, vamos – tom incentivador – Acho que logo você verá a sua resposta.
Eu – Mais um pouco e definitivamente morrerei. Eu cansei, sério. Não há como você me contar? – tom insistido – Sei que adora passagens triunfais, mas me poupe de mais uma destas belas e cientificamente impossíveis histórias bíblicas – tom chateado e cansado.
D – Está bem. Darei-te uma dica, mas unicamente pelo fato de ter um coração virtuoso que tanto tenta abafar – tom angelical.
Eu – E como é virtuoso, o meu Senhor – tom de valorização à algo sem valor.
D – Aí vai. Olhe ao seu redor – tom celestial.
Eu – O que? O que há ao meu redor? – tom curioso.
Passou algum tempo. Procurei insistentemente por algo. Nada havia naquele morto deserto. Enquanto isto, observava Deus à mim e dada boas risadas ao ver a cega tentativa de seu convidado.
Eu – Deus, já olhei em tudo o que é lugar em que minha vista alcança. Nada vi que responde-se minha pergunta – tom decepcionado – Apenas vi as minhas pegadas na areia. Por falar nelas, o vento está apagando-as, e isto está me deixando com medo – tom temeroso.
D – Este é o mesmo sentimento de temor que vejo nos olhos dos que morrem e vem em minha presença – tom paternal.
Eu – Agora sim. Entendi a resposta – tom contente.
D – Sério – tom cômico – Sabia que ia conseguir em algum momento, mas achava que, com a sua absurda inteligência, conseguiria antes – tom satírico e irônico.
Eu – Sim – tom raivoso – Eu consegui. A vida, não só minha, como de todos, é a areia do deserto. Minhas pegadas são as minhas ações. O vento é o tempo. Conforme andei, deixei meus rastros nela. O vento as está apagando, umas rapidamente e outras vagarosamente – tom filosófico.
D – Isto aí, você está pegando o espírito da coisa – tom contente.
Eu – Me deixa acabar?! – tom irritante para uma pergunta retórica – Conforme as minhas ações são prensadas na vida dos outros o tempo tenta desfazê-las. Mas algumas resistem. Está ai a razão da vida. Fazer com que as minhas ações sejam prensadas na vida dos outros de uma forma que nem o tempo consiga apagá-las – tom convencido.
D – Você realmente acha isto? – tom questionador – Você também, não acha que a vida é apenas um deserto sem significado?
Eu – Não. A vida não pode só isto. Um vazio sem sentido.
D – Então, porque sempre acha que ela é assim? – tom super questionador.
Eu – Não acho mais – tom perfeito.
D – Então consegui o que queria – tom satisfeito.
Eu – Ué, o que tanto queria Senhor? – tom questionadoramente chato – Estava só me usando?
D – Não. Queria te mostrar que há mais na vida que simplesmente acha. Tudo que faz tem uma razão. Deixa uma marca. O tempo pode, ás vezes, apagá-la, mas nem sempre. Tome cuidado com suas ações. Elas marcam como o ferro quente marca a pele, como seus passos marcam a areia – tom celeste.
Eu – Não se preocupe – tom concordado.”

Não sei o porquê de ter escrito isto. Acho que fui iluminado, seja lá por quem. Talvez fosse o que eu precisava neste momento. Precisava de uma razão para continuar. Talvez a vida seja como a areia e nossas ações como os pegadas. Devemos ter cuidado, pois podemos ferir alguém de forma que o tempo não apague. Devemos é marcar a vida de todas as pessoas de uma forma boa, em que elas sempre se lembraram de nós, da melhor forma possível. Isto sim, consegui provar. Todos os meus namorados haviam me marcado. Todos os meus amigos também. Sempre de uma forma a não se apagarem com o vento. Cresci muito graças á muitas pessoas que pisaram em minha vida, tanto de formas boas como ruins. Assim é que me tornei a pessoa que sou. Uma pessoa abençoada por ter outras que pisam em minha vida, sempre torcendo que seja de uma forma abençoada.
Apresentei o diálogo ao grupo religioso. Todos ficaram espantados, no bom sentido. Nunca imaginariam que uma pessoa como eu, totalmente cética, poderia escrever algo tão profundo e revelador assim. Às vezes nos enganamos com as aparências. Julgamos a capa, ao invéz do conteúdo. Eu havia julgado errado. Sempre achei que Deus era um ser chato e irritante. Talvez ele pudesse ser uma pessoa interessante e cômica. Porque, não seria? Se eu pude escrever um texto tão revelador, talvez ele fosse um ser engraçado e amigo. Um dia saberei, quem sabe. Basta ele me chamar para mais uma caminhada. E só aceitarei se prometer cigarros e bebidas. Quem sabe eu não o chamo para caminhar comigo, enquanto lhe mostro o porquê os homens serem assim, transformadores de coisas boas em coisas ruins. Será que ele aceitaria? Pelo menos eu não o levaria á um deserto seco e sem vida.

31 de outubro de 2009

Os Diamantes São Eternos


Quarta – Feira, aula de um ótimo professor em que eu conseguia extrapolar meu lado meio calado. Um momento em mim, em que todos os valores mereciam ser revisados. A aula deste dia não poderia ser melhor para o meu processo de crescimento interior. O professor passou um filme, chamado “Quanto Vale, Ou é Por Quilo?”. Nele, fala como as pessoas, quando ajudam, querem apenas tirar lucro, um aproveito próprio, desvirtuando dos valores que atribuímos à solidariedade.
O filme já havia acabado, com todos os meus desejos de ser solidário. Todos os meus valores que considerava como certos, imutáveis e perfeitos agora eram apenas desenhos de uma criança que nunca poderia fazer escola de artes. Nem bem havia deixado à sala e uma conhecida da faculdade me chamou para participar de um grupo sobre religião. Eu, que sempre fui ateu o mais fervoroso possível e contra o poder alienável da religião, não consegui dizer não. Não sei se foi a carinha tão pura dela ou minha vontade de saber mais sobre as religiões.
Ao chegar à sala, todos me perguntaram o que eu fazia ali. Falei que a minha conhecida havia me chamado de uma forma inaceitável. Todos me olharam estranhamente. Perguntaram-me sobre quais seriam os meus valores fundamentais. Como todo bom discípulo de Marilyn Monroe, disse que os diamantes são eternos. Todos meio que riram, mas continuaram me estranhando. Complementei dissendo que apenas os diamantes conseguiriam existir após a terra fosse engolida pelo sol que morria. Todos falaram, como bons evangélicos, que como os diamantes também somos nós, pois fomos criados por Deus, e estas coisas. Tive muita vontade de rir no momento, mas me segurei.
Enquanto eles cantavam e pediam ao demônio, pela força de Deus, que se afastassem dali (senti como se fosse um pedido para que eu me retirasse), fiquei pensando. Será que nós somos como os diamantes? Será que eles são realmente eternos? Enquanto eles liam uma parte da bíblia que falava sobre um cara que foi decapitado, ou esganado, sei lá, estas perguntas me atormentaram a talvez existente alma dentro de mim. Será que eu poderia ser como diamante, eterno, belo, brilhante?
Olhava intensamente o solitário de diamante que estava no meu dedo. Ele era duro, brilhante, resistente, caro e eterno. Eu sempre me achei mole, não tão inteligente, pouco resistente e mortal. Não, talvez eu não fosse um diamante, pelo menos como o que estava no meu dedo. Mas, para que todo diamante aparecesse perfeito, havia a necessidade de ser lapidado primeiro. E, lapidado valia sempre mais e era, sempre, mais almejado. O diamante que estava em meu dedo, um dia já havia sido uma pedra suja que eu não pagaria nem um centavo.
Será que no fundo, somos todos uma pedra suja que, se lapidada, poderá se transformar num grande, forte e caro diamante? Como todo bom joalheiro sabe, todo diamante tem uma sujeirinha que não sai com nenhuma lapidação, por melhor que seja. Será, então, que somos belos diamantes, mas ainda impuros? Ou será que há pessoas que são diamantes impuros ou não-lapidados? Talvez, minha alma gritava. Como eu gostaria de ser um diamante lapidado e com algumas impurezas, imperceptíveis a olho nu, e que estas fossem o que a tornasse única. Sei que tenho defeitos, mas todos têm. Há também defeitos que fazem parte da pessoa, que a fazem ser como ela é realmente. Minha alma, nesta hora acalmou e desapareceu, espero que não para sempre.
E lá estavam eles, lendo uma parte que falca sobre deserto e o espírito santo e eu lá, desejando à hora de sair. Talvez este fosse uma de minhas impurezas, o ceticismo. Será que eu gostaria de lapidar esta parte, ou ela é que me fazia único? Resolvi sair, dissendo que eu era como um diamante e que uma de minhas impurezas era o ceticismo e o ateísmo e que não gostaria de lapidar esta parte. Era ela que me fazia ser o que eu era realmente. Então saí, brilhante como um diamante e convencido de minha força e beleza. Um dia, alguém, verá o alto valor que tenho e me comprará e me porá no solitário que é a sua vida. Aí sim serei eterno, como os diamantes.

30 de outubro de 2009

O Gozo Nos Tempos do Consumismo


Nos tempos modernos, é cada vez mais difícil se atingir o prazer com aquilo que temos. Seja com a promoção recém conquistada, seja com o novo belo namorado, seja com uma nova jóia comprada em 12 suaves prestações mensais, seja com seus amigos. Será que nos tornamos tão materialista e consumistas, que é difícil perceber o prazer, mesmo quando está bem na nossa frente? Ou será que não valorizamos mais as coisas que tanto batalhamos para possuir?
Estava eu e Surf tomando um Martini no Assacabrassa. Enquanto ríamos sobre o fato de estarmos bebendo logo numa terça feira, ela jogou a bomba. Voltei com o baby. Baby era o ex-namorado dela que, por ser tão pão-duro, nem a chamava para sair. Namoravam era pelo celular e através de mensagens, pois era mais barato. Como assim, perguntei a ela. Bem, de todos que namorei (e não foram poucos, eu disse baixinho, principalmente enquanto o namorava, complementei), ele era o único que eu podia ligar a qualquer momento, ela disse. Ele sempre estava lá para me ouvir, complementou.
Eu e todos os nossos amigos em comum achávamos que ela deveria terminar com ele o mais rápido possível. Ele não a valorizava, nunca estava ao lado dela e só ficava ligando para brigar por ela estar conosco. Uma vez, foi pegar ela de carro num bar e, ao comentarmos que iríamos num outro ali perto com ela, ele teve a audácia de perguntar se não iríamos de táxi e que iria deixar ela lá. Nem nos demos à audácia de responder sua pergunta, e entramos no carro. Em todo o percurso, nem falamos nada com ele, mas nos preparamos para o fim do relacionamento deles.
Comentei, com a Surf, sobre o episódio que contei acima, mais uma vez. Ela, com sempre, se desculpou por ele. Disse, para variar, que havia conversado com ele sobre o ocorrido e que ele havia se desculpado. Vai lá saber. Eu duvido. Ainda mais por ele ser tão pão-duro. Mas, fazer o que. Falei que ela devia se valorizar mais, coisa que ele não fazia. Comentei que já havia visto ela com tantos outros caras que a valorizavam, que amavam tanto, que fariam tudo o que ela pedisse. Fingiu que não havia me ouvido. Repeti tudo novamente, mais uma vez.
Tanto cansei de repetir, que ela foi obrigada a mostrar que havia me ouvido. Apenas disse que há coisas que não valorizamos nos outros. Perdemos a nossa capacidade de sentir prazer, afirmou. Cada vez mais vejo que as pessoas não valorizam o que o outro lhe dá, apenas ficam implicando com os defeitos, cegos perante as qualidades, comentou. Fácil é ver defeitos, difícil é valorizar as qualidades, filosofou. Percebi que só ficava apontando os defeitos, nunca havia visto suas qualidades, defendeu-o. Foi só quando terminei que percebi o quão bom suas qualidades eram, disse.
Será mesmo que não conseguimos ver as qualidades? Será que só conseguimos ver o que os outros nos trás de mal, ao invés de perceber as coisas gozosas que ela nos dá? Fiz estas perguntas a Surf. Ela disse que sim, pois hoje vivemos num mundo capitalista que mais vale o que o ser tem do que ele é realmente. Queremos atingir os fins, a qualquer meio, maquiavelicou. Se queremos ser felizes, vamos á procura selvagem, cortando qualquer obstáculo que não seja 100% aquilo que queremos, complementou. Acabamos valorizando mais os defeitos que as qualidades. As pessoas já não mais sentem o gozo de algo. Ou aquilo trás prazer naquele momento ou já era, filosofou.
Fiquei pensando em meus relacionamentos, mais uma vez. Será que eu havia usado todos eles e, por não ter atingido o gozo nas primeiras vezes, eu acabei terminando? Será que eu não conseguia ver as qualidades antes dos defeitos? Raciocinei o mais profundo que pude. Entrei no fundo de minha alma para tentar responder minha pergunta. Lembrei do Pièrre. Lembrei de seus defeitos e qualidades. Parece que eu havia visto antes as qualidades, graças a Deus. Lembrei do Hagolph, daquilo que amava e detestava nele. Vi que havia visto as qualidades antes dos defeitos. Por último, lembrei do Hirh, meu atual ex-namorado. Só neste caso havia lembrado de ter visto os defeitos antes das qualidades, mas também, não havia desistido tão facilmente assim.
Enquanto acabávamos de beber o Martini e pedíamos a conta, minha cabeça se viu presa na história de Hirh e eu. Quando o vi pela primeira vez, ele foi a pessoa mais egocêntrica e chata do mundo. Por isto, havia visto primeiramente seus defeitos. Mas, conforme nos encontrávamos, pelo simples acaso, comecei a ver algumas de suas qualidades, que se superavam aos seus chatos e irritantes defeitos. Terminamos, pois ele me amava mais do que eu a ele. Queria me ter ao seu lado em todos os momentos e, como vivemos em lugares diferentes, mostrei que isto seria impossível no momento. Então, ele resolveu terminar.
Quando a conta chegou e já íamos pagar, resolvi contar sobre o Hirh para a Surf. Contei toda a nossa história, enquanto ele tomava os últimos goles de seu Martini. Viu, ela disse, só queremos o prazer momentâneo. Não conseguimos mais esperar para sentirmos o gozo. Valorizamos o agora do que o depois, completou. Contra-argumentei com um não, pois se o argumento dela fosse verdadeiro eu não teria namorado ele. Então o que você chamou de defeitos era o que lhe deu prazer imediato ou você viu, ao mesmo tempo, algo que lhe dava prazer, ela disse. Tentei á todo custo disser que não, mas nem me ouviu.
Joguei então meu argumento final. Falei do Pièrre e do Hagolph. Ai esta toda á lógica de meu argumento, ela disse. Você sentiu feliz com algo naquele momento, por isto continuou. Quando acabou, você terminou, ela finalizou. Eu nem quis mais argumentar. Aquela conversa já não me dava prazer mais. Realmente fiz validar a lógica dela.
Despedimo-nos e fomos embora. No caminho de casa, comecei a perceber o que tanto gostava em cada um de meus namorados. Talvez a Surf estivesse certa. Queremos algo bom agora e não depois. Mas, eu preferiria algo melhor depois a um bom agora. Nada contra algo bom agora e melhor depois, como havia sido a maior parte de meus namoros. Quem sabe, não vemos mesmo os defeitos antes das qualidades, mas talvez numa vil tentativa de nos prepararmos para o futuro. Antes saber o mal agora e o bom depois, do que o bom agora e sofrermos o mal depois. Ninguém gosta de sofrer. Talvez por isto queremos tanto o prazer no momento, pois a dor é insuportável e nossa mente não aceita que algo bom tenha algo ruim nela.
Andando eu ia, pensando nos prazeres que cada um dos meus ex-namorados havia me dado, todos os bons e os maus momentos, toda a nossa história juntos. Não presei pelo prazer, mas também não fiquei preso aos defeitos. Aceitei os defeitos quando vi o gozo que me davam. Assim é a vida, uma simples comparação do bem e do mal, uma troca de coisas. Se alguém me der algo bom, relevarei seus defeitos, e vice-versa, espero. Esperando vou, á procura de alguém que veja meus defeitos, mas os releve pelas minhas qualidades.

29 de outubro de 2009

Mulherzinha Dos Anos 50

Aula à noite na faculdade. Por incrível que pareça, o professor mandou fazer um trabalho. O fiz em menos de 10 minutos e sai para fumar um cigarro. Na porta encontrei a Demage, uma amiga faculdade que faz o mesmo curso que eu só que está uns períodos abaixo. Ela também fuma, o que ajuda bastante no início de um bom papo reflexivo.
Ela começou a falar sobre como tem estado super apertada com sua agenda. Não havia tido tempo nem de por uma boa roupa para ir à faculdade. O que ela quis disser, na verdade, foi um pedido de desculpas por estar tão desarrumada. Como toda boa mulher dos anos 50, falei que a culpa era dela e que se ela continuasse assim, toda desarrumada, não conquistaria um marido. Ela apenas olhou para mim com uma cara de “tomara que você morra”. Olhei para ela com uma cara de ter conseguido ganhar todo um argumento com poucas palavras e sem direito à defesa, como eu estava enganado. A briga tinha apenas começado.
Nisto a Surf chegou para me ver. Perguntou sobre o que falávamos. A Demage nem me deu tempo de abrir a boca e já foi falando o tópico de nossa conversa. A Surf, como toda mulher do século 21, olhou para mim e perguntou em qual século eu vivia. No 19, no máximo, respondeu a Demage. Olhei para elas e disse que não, mas algo dentro de mim era tão anos 50.
Sempre me vi como uma das maravilhosas, elegantes, femininas e dependentes mulheres dos anos 50, como a Jackie, quando Onassis. Meu sonho sempre foi, e sempre será, ser estas mulheres. Ter um marido, uma casa bem arrumada, belas jóias, alguns filhos com nomes “ricos” (e para ricos digo cheios de sobrenomes, pelo menos uns 5). Estar sempre bem vestido, perfumado e com o jantar na mesa para todos. Sou daqueles casamenteiros. Que irá lavar, passar e cozinhar com amor e, à noite, estar bem arrumado à espera do marido chegar. Sim, também quero ter uma carreira profissional, mas uma em que eu possa conciliar meu sonho e a carreira. Não sou fútil, já digo. Sempre terei minha inteligência e a minha beleza. Estas sim, em minha opinião, podem coexistir.
Bem, o tópico de nossa conversa ficou em duas difíceis perguntas: É possível uma mulher ser bem sucedida e bem arrumada na atualidade? Ou será que as mulheres perderam sua feminilidade no meio do caminho?
Sem surpresa, elas falaram que as mulheres não perderam sua feminilidade e que conseguem sim conciliar a carreira e a beleza, só que sobra pouco tempo para as outras coisas. Há de se frisar que na atualidade as mulheres têm mais do que só o papel de mulheres, disse Surf. Elas têm também o papel de profissional, e tem que fazer bem feito este papel, pois o mercado já suspeita que não daremos conta do recado, complementou Surf com a concordância de Demage. Tive que concordar com elas. A mulher de hoje tem dois trabalhos, o da casa e o profissional.
Então, como fica o tempo para a beleza? Será que agora, as mulheres terão de cortar seu tempo para a beleza para por a carreira profissional? Ou será que tudo tem um jeitinho, basta apenas olhar melhor? Eu resolvi fazer uma leve pesquisa visual. Fiquei duas horas reparando nas mulheres que andavam na Praça da Liberdade. Posso contar nos dedos as que vi vestidas na mesma elegância que as mulheres dos anos 50 que tanto vi e admirei em filmes antigos. Tudo bem que a moda mudou, mas poucas foram as que usavam maquiagem, uma roupa mais sexy ou um jeito mais feminino tanto de andar como de olhar. Pelo que reparei em menos de duas horas, podia afirmar, com total certeza, que a feminilidade estava morta nos dias atuais.
Resolvi ligar para a Surf e contar tudo o que havia percebido. Recebi um sermão. Ela disse que a moda havia mudado, bastava eu olhar em qualquer revista. O que estava in, como bem disse, era pouca maquiagem, roupas elegantes só em situações elegantes e quanto mais natural você conseguir transparecer melhor. Até as cirurgias plásticas tinham que parecer naturais, frisou no sermão. O belo agora era ser profissional, inteligente e natural (sendo natural o mais igual a uma mulher de vinte e bem poucos anos). E não só isto, elas também tinham que ser belas. Ou seja, hoje elas têm muito mais trabalho para fazer do que nos anos 50.
É, mais uma vez tive que acabar com meus argumentos e ceder a ela. Como a moda muda, também o conceito de feminino muda. Antigamente, uma mulher só precisava ser casada, bonita e trabalhadora em casa para ser considerada perfeita. Hoje, elas têm que ser bem sucedidas profissionalmente, jovens, saudáveis, inteligentes, trabalhadoras, boas de cama e ainda por cima belas. Duplicaram os trabalhos das mulheres. Então, como elas conseguem conciliar tudo isto, perguntei a Surf. Para tudo há um jeitinho, respondeu. Como a seleção natural de Darwin, as mulheres derem um jeito de sobreviver ao mundo atual, do jeito que seu ambiente impôs a elas sem pedir permissão. A feminilidade conseguiu viver, com algumas mudanças. Grandes na minha opinião, mas necessárias e interessantes na de Surf, e talvez na da maioria das mulheres.
E lá estava eu, sentado num dos bancos da Praça da Liberdade, olhando as pessoas que passavam. Pensei nos meus sonhos e percebi que, como toda mulher atual, eu não queria apenas ter um homem ao meu lado. Eu queria ser um bom profissional. Mas como os anos cinqüenta não saem de mim, eu ainda iria esperar um homem que eu pudesse agradar. Não, um homem que merecesse entrar na porta de minha casa e que também merecesse comer a comida que eu fizesse enquanto eu olhasse para ele. E lá fico eu, à espera deste homem que me carregará em seus braços, me porá em seu Cadillac e dirá “vamos para o ponto do amasso?”. Pelo jeito os anos 50 nunca poderiam ser apagados, pelo menos nos meus sonhos não, como também a minha contemporaneidade.

28 de outubro de 2009

Só ou Namorar, Eis a Questão


Estava eu na porta da faculdade, fumando um gostoso cigarro, enquanto a chuva caia. Pensava nos meus fracassados relacionamentos, quando a Wisley chegou. Ela era uma conhecida minha da faculdade, mas não fazia o mesmo curso que o meu, e há uns meses não nos víamos. Cumprimentamos-nos. Ela me perguntou sobre o namoro. Respondi que agora queria era ficar só, apenas eu e meus pensamentos. Ela falou que isto era o importante, ficar apenas com você. Não só disse isto, complementou que se eu queria ficar só é porque não queria mais o namoro.
Foi aí que meus pensamentos finalmente se organizaram na pergunta: Ficar só é diferente de querer namorar? Para ela era sim, pois se você quer ficar com você apenas, significa que não quer mais a outra pessoa, e não querendo a outra pessoa, o namoro não deve continuar. Lógica pura, ela disse. Olhando agora é mesmo, mas querer ficar só não pode ser apenas um momento que todos temos quando nos envolvemos profundamente? E, se não, o ficar só, por si só, já significa que estamos solteiros novamente?
Resolvi, então, ligar para a Surf e perguntar a ela. Ela, em minha opinião, iria me mostrar que o argumento da Wisley era falso. Marcamos de nos encontrar no bar em frente à faculdade mais à tarde.
Encontramo-nos e compramos uma cerveja. Enquanto tomávamos, fiz a pergunta que tanto organizava meus pensamentos: Há como ficar só sem ter que sair de um relacionamento? Não, me respondeu prontamente. O próprio ato de estar só já menciona a solidão e o querer ficar solteiro, respondeu. Aquilo acabou com todos os meus argumentos. Ela havia ganhado a batalha, mas eu havia ainda uma carta na manga. Perguntei então o que significaria os constantes amantes que tinha, ou seja, o porquê de tanto trair o namorado. O simples fato de não querer ficar só, ela disse. Não quero ficar só quando meu namorado se retira, por isto saio com outros homens sem que ele saiba, complementou. A solidão não lhe cabe bem. Na verdade, ela própria não agüentava ficar com ela mesma, era cansativo e chato. Os amantes serviam para os momentos em que o namorado a deixasse só consigo mesma. Simples, rápido e fácil maneira de se resolver o problema de não se agüentar ficar só, logicamente interpretei.
É, parecia que não haveria como ficar só e namorando ao mesmo tempo. Elas seriam como partículas de mesmo sinal, sempre afastando mutuamente. Como a lei de Newton, em que não há como dois corpos ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo. Não coexistiriam. Ou você está só ou está num relacionamento, sem um meio termo. Falar “quero ficar só por agora” já esta mencionando o “quero terminar com você neste exato momento”. Talvez em uma forma até mais elegante de se disser que o relacionamento terminou.
Não consegui engolir isto tão facilmente. Fiquei pensando em meus relacionamentos, enquanto acabava de tomar a cerveja. Lembrei do Pièrre, do Hagolph. Sim, quando terminei com eles foi no exato momento em que queria ficar só, com apenas uma simples exceção, não agüentei ficar só por muito tempo. Tive que aceitar o fato de que ficar só é o mesmo que querer ficar solteiro novamente, independentemente do tempo. Wisley e Surf não só haviam ganhado a batalha, como toda a guerra sem derramar uma só gota de sangue aliado.
Pagamos à cerveja, despedimo-nos e fui embora. No caminho de volta, passei pela porta da faculdade. Encontrei com a Blindparents. Refiz a pergunta que havia feito a Surf. Ela também concordou. Disse que havia terminado com o namorado pelo fato de se sentir só após a traição áudio-visual descoberta. Sorri e a abracei. Contei tudo que passava em minha cabeça. Ela me abraçou mais forte.
Sim, querer ficar só não é um problema, mas o simples ato de não querer mais um namoro. Porém, o ficar só, não significa que você tem que se isolar do mundo. O só inclui seus amigos, que sempre estão lá para lhe ajudar e lhe dar apoio neste momento tão delicado que passa. E serão eles que farão querer acabar com este estado de só e começar um namoro, mesmo que depois descubra que quer ficar só denovo.

27 de outubro de 2009

Regras do Reconhecimento






No mundo globalizado e cheio de informação de hoje, lembrar de alguém que você só viu no máximo umas dez vezes em no máximo três meses é impossível. Para que nossa mente absorva todas as informações necessárias para que você se lembre de alguém toma no mínimo uns dez encontros em no máximo três semanas. Caso contrário, encontrar com ela fará com que você não a reconheça. Posso citar um exemplo bem recente que me aconteceu. E quem não pode, tem problemas ou é um gênio, ou simplesmente não consegue nem se lembrar de um simples acontecimento banal como este.
Ontem, estava eu andando distraído com meus pensamentos, em frente ao Detran na Avenida João Pinheiro, quando alguém me deu um toque e me perguntou como eu estava. Logo no início, pensei que fosse um engano, mas a pessoa me perguntava como andava a faculdade, os namoros, estas coisas. Não consegui me lembrar de onde a conhecia e nem quem era. Acho que todos já passaram por esta situação. Ela nos deixa confusos, pois por mais que tentemos descobrir de quem se trata, não conseguimos. Eu, particularmente, tenho 3 regras para esta situação. Elas são:
1ª Regra: não demonstre que não conhece a pessoa. Cumprimente-a cordialmente, se puder fale “querida”, em lugar do nome. Foi assim que fiz. Ao mesmo tempo, tente ao máximo lembrar quem ela é. Olhe diretamente nos olhos, repare na fisionomia, na cor dos cabelos, etc, até conseguir lembrar quem ela é. Se conseguir, não precisará usar as outras regras abaixo.
2ª Regra: Se não conseguir lembrar quem é a pessoa, pelo menos você não a fez passar por uma situação embaraçosa e nem você. Bata um leve papo, pergunte como vai a Faculdade, o namorado. Mesmo que ela diga que já te disse que já se formou ou que terminou o namoro faz tempo, talvez ela lhe jogue uma dica de quem é, ou de onde se conheceram. Eu não consegui nenhuma dica com ela, apenas que fazia pós-graduação já. Se você conseguir lembrar, não precisará da próxima regra.
3ª Regra: Se nenhuma das duas regras acima tenha lhe ajudado a descobrir quem é a pessoa em sua frente, então está na hora de você dar no pé. Termine o papo com alguma desculpa, falando que tem outras coisas para fazer e que foi bom revê-la. Foi assim que fiz. Falei que tinha que entregar um trabalho na faculdade e que já estava atrasado. Sei que está regra não ajuda a descobrir quem é a pessoa, mas não fará você passar por um amnésico.
Mas há também uma última regra, que é para aqueles que têm a total obsessão compulsiva depressiva de saber quem que se trata realmente. Então, ai vai ela:
4ª Regra: Se você tem a doença que citei acima, então pode se comportar de duas formas: a verdadeira, em que você fala a verdade, mostrando que realmente não lembra dela e lhe pede que lhe diga quem é; e a fictícia, em que você fala que seu celular deu um problema e lhe pede o número dela novamente, talvez ela lhe lembre, mas é arriscado, pois após ela te dar o número ela pode ficar esperando você falar o nome dela, ai você vai ter que usar a forma verdadeira.
Há também os casos de pessoas que acham que te conhecem, mas na verdade, elas estão te confundindo com outra pessoa. Nestes casos, use o velho ditado de “não faça aos outros, o que você não gostaria que lhe fizessem”, ou seja, finja que realmente conhece a pessoa, concorde com tudo o que ela disser e tente dar no pé o mais rápido possível, com a velha desculpa de “estou cheio de coisas para fazer, depois nos falamos, adeus”. Ajuda bastante no fingimento e não deixa a pessoa constrangida.
Depois que consegui sair da 3ª regra, fui em direção a faculdade, batalhando com minha memória para saber quem era a tal menina que me cumprimentou em frente ao Detran. Quando cheguei na porta da faculdade, lembrei de quem se tratava. Era uma garota que fazia pós-graduação lá e que eu havia filado um cigarro e batido um bom papo. É, no fundo, depois de tanta briga comigo mesmo, finalmente lembrava. Acho que tenho que começar a tomar minha pílula para esclerose.

26 de outubro de 2009

Os Fins Chuvosos


Em todo filme romântico, sendo ele francês ou bem Hollywoodiano, sempre que um casal termina um relacionamento, a chuva vem em seguida, forte como o sentimento que ambos possuíam e que agora nada mais significa. Mas será que os filmes nada mais são que uma mera visão da realidade? Será que o fim de um relacionamento tem sempre que chover? Ou será a chuva nada mais que uma metáfora das lágrimas que ambos querem expor, mas que na situação ela apenas complicariam tudo?
Posso por aqui vários fins de relacionamentos em que choveram. E olha que não foram poucos. Lembro-me particularmente do alemão que namorava, Hagolph. Estávamos na porta de meu apartamento, ele me beijava e suas malas estavam atrás dele. Estava dissendo como o nosso relacionamento não mais dava certo. A chuva chegou, fina no começo, como as minhas palavras e fortes no fim, quando nos beijamos pela última vez, enquanto o taxista pegava as suas malas.
Lembro também do caso de uma amiga, bem recente. Sra. Blindparents. Ela estava namorando um cara á vários anos. Quando deram um tempo no relacionamento, ele transou com uma menina. Não só isso, ele gravou ela fazendo sexo oral nele. Quando resolveram acabar com o tempo e voltaram, ela viu o filme. Ela o chamou, então de pornozinho caseiro. A dor era grande. Não conseguiu nem beija-lo mais. Depois de um mês terminaram. Logicamente, como é comum nesta época, choveu, e forte, como a dor de ter de acabar algo que nada mais era, mas que grande coisa havia sido.
Posso citar também a Sra. Surf, outra amiga minha, cujo namorado, imperfeito por ser pão-duro, descobriu á traição. Ele havia ligado para ela, enquanto ela estava com o amante. Ela atendeu sem querer, ao encostar-se ao telefone. Ele ouviu tudo e gravou. Após um tempo, ligou para ela. Marcaram de sair. Foi buscá-la. Quando ela entrou no carro, ele começou a falar falas do encontro amoroso. Ela nada conseguia disser. Ele pôs para tocar a conversa que gravara. Ela ouvia calada. Pediu para sair. A chuva era forte, mas era preferível a ver à forte reação que seria a do namorado traído. Ela, molhada, andava. Ele, seco e triste, acompanhava com o carro. A virada era inevitável. Ele virou o carro, enquanto disse “vadia”. Ela não chorou. A chuva secava suas lágrimas.
Talvez, a chuva não seja uma metáfora para as lágrimas. Talvez seja apenas a dor. A dor de ter que ver partir, de ter que terminar, de não poder mais continuar. Dissem que toda vez que se fecha uma porta, se abre uma janela. Mas, ás vezes, as fechamos por medo da chuva forte e de nos molharmos. Será que sempre que se fecha uma porta, se abre uma janela, no mínimo? Será que depois da chuva forte sempre há um arco-íris?
Comigo, sempre que um relacionamento termina, outro começa rapidamente. Com a Blindparents também. Em menos de três dias, uns amigos a chamaram para ir a uma festa. Ela bem que não queria no começo, mas achava que devia seguir a vida. Disse que iria apenas para relaxar e que se surgisse algo interessante, na verdade, alguém, ela não perderia a chance. Com a Surf, não houve uma janela, mas uma porta. Ela está, agora, saindo com alguns homens possivelmente interessantes. Não quer mais um só relacionamento, apenas quer curtir a vida. Não quer mais ser presa a nada, nem aos sentimentos. Só terá saídas á bons bares e boates, incluído todos os homens que ela puder por as mãos.
É possível que o fim de algo possa ser o inicio de algo melhor? Termino aqui, olhando a porta da garagem se fechar, enquanto a chuva forte se afina e me deixa aqui, sozinho, pondo um fim a uma amizade que já foi um arco-íris e que agora é apenas passado, uma porta que se fechou, e á espera de uma coisa nova, a janela que ainda não se abriu, mas que um dia irá, possivelmente.