29 de outubro de 2009

Mulherzinha Dos Anos 50

Aula à noite na faculdade. Por incrível que pareça, o professor mandou fazer um trabalho. O fiz em menos de 10 minutos e sai para fumar um cigarro. Na porta encontrei a Demage, uma amiga faculdade que faz o mesmo curso que eu só que está uns períodos abaixo. Ela também fuma, o que ajuda bastante no início de um bom papo reflexivo.
Ela começou a falar sobre como tem estado super apertada com sua agenda. Não havia tido tempo nem de por uma boa roupa para ir à faculdade. O que ela quis disser, na verdade, foi um pedido de desculpas por estar tão desarrumada. Como toda boa mulher dos anos 50, falei que a culpa era dela e que se ela continuasse assim, toda desarrumada, não conquistaria um marido. Ela apenas olhou para mim com uma cara de “tomara que você morra”. Olhei para ela com uma cara de ter conseguido ganhar todo um argumento com poucas palavras e sem direito à defesa, como eu estava enganado. A briga tinha apenas começado.
Nisto a Surf chegou para me ver. Perguntou sobre o que falávamos. A Demage nem me deu tempo de abrir a boca e já foi falando o tópico de nossa conversa. A Surf, como toda mulher do século 21, olhou para mim e perguntou em qual século eu vivia. No 19, no máximo, respondeu a Demage. Olhei para elas e disse que não, mas algo dentro de mim era tão anos 50.
Sempre me vi como uma das maravilhosas, elegantes, femininas e dependentes mulheres dos anos 50, como a Jackie, quando Onassis. Meu sonho sempre foi, e sempre será, ser estas mulheres. Ter um marido, uma casa bem arrumada, belas jóias, alguns filhos com nomes “ricos” (e para ricos digo cheios de sobrenomes, pelo menos uns 5). Estar sempre bem vestido, perfumado e com o jantar na mesa para todos. Sou daqueles casamenteiros. Que irá lavar, passar e cozinhar com amor e, à noite, estar bem arrumado à espera do marido chegar. Sim, também quero ter uma carreira profissional, mas uma em que eu possa conciliar meu sonho e a carreira. Não sou fútil, já digo. Sempre terei minha inteligência e a minha beleza. Estas sim, em minha opinião, podem coexistir.
Bem, o tópico de nossa conversa ficou em duas difíceis perguntas: É possível uma mulher ser bem sucedida e bem arrumada na atualidade? Ou será que as mulheres perderam sua feminilidade no meio do caminho?
Sem surpresa, elas falaram que as mulheres não perderam sua feminilidade e que conseguem sim conciliar a carreira e a beleza, só que sobra pouco tempo para as outras coisas. Há de se frisar que na atualidade as mulheres têm mais do que só o papel de mulheres, disse Surf. Elas têm também o papel de profissional, e tem que fazer bem feito este papel, pois o mercado já suspeita que não daremos conta do recado, complementou Surf com a concordância de Demage. Tive que concordar com elas. A mulher de hoje tem dois trabalhos, o da casa e o profissional.
Então, como fica o tempo para a beleza? Será que agora, as mulheres terão de cortar seu tempo para a beleza para por a carreira profissional? Ou será que tudo tem um jeitinho, basta apenas olhar melhor? Eu resolvi fazer uma leve pesquisa visual. Fiquei duas horas reparando nas mulheres que andavam na Praça da Liberdade. Posso contar nos dedos as que vi vestidas na mesma elegância que as mulheres dos anos 50 que tanto vi e admirei em filmes antigos. Tudo bem que a moda mudou, mas poucas foram as que usavam maquiagem, uma roupa mais sexy ou um jeito mais feminino tanto de andar como de olhar. Pelo que reparei em menos de duas horas, podia afirmar, com total certeza, que a feminilidade estava morta nos dias atuais.
Resolvi ligar para a Surf e contar tudo o que havia percebido. Recebi um sermão. Ela disse que a moda havia mudado, bastava eu olhar em qualquer revista. O que estava in, como bem disse, era pouca maquiagem, roupas elegantes só em situações elegantes e quanto mais natural você conseguir transparecer melhor. Até as cirurgias plásticas tinham que parecer naturais, frisou no sermão. O belo agora era ser profissional, inteligente e natural (sendo natural o mais igual a uma mulher de vinte e bem poucos anos). E não só isto, elas também tinham que ser belas. Ou seja, hoje elas têm muito mais trabalho para fazer do que nos anos 50.
É, mais uma vez tive que acabar com meus argumentos e ceder a ela. Como a moda muda, também o conceito de feminino muda. Antigamente, uma mulher só precisava ser casada, bonita e trabalhadora em casa para ser considerada perfeita. Hoje, elas têm que ser bem sucedidas profissionalmente, jovens, saudáveis, inteligentes, trabalhadoras, boas de cama e ainda por cima belas. Duplicaram os trabalhos das mulheres. Então, como elas conseguem conciliar tudo isto, perguntei a Surf. Para tudo há um jeitinho, respondeu. Como a seleção natural de Darwin, as mulheres derem um jeito de sobreviver ao mundo atual, do jeito que seu ambiente impôs a elas sem pedir permissão. A feminilidade conseguiu viver, com algumas mudanças. Grandes na minha opinião, mas necessárias e interessantes na de Surf, e talvez na da maioria das mulheres.
E lá estava eu, sentado num dos bancos da Praça da Liberdade, olhando as pessoas que passavam. Pensei nos meus sonhos e percebi que, como toda mulher atual, eu não queria apenas ter um homem ao meu lado. Eu queria ser um bom profissional. Mas como os anos cinqüenta não saem de mim, eu ainda iria esperar um homem que eu pudesse agradar. Não, um homem que merecesse entrar na porta de minha casa e que também merecesse comer a comida que eu fizesse enquanto eu olhasse para ele. E lá fico eu, à espera deste homem que me carregará em seus braços, me porá em seu Cadillac e dirá “vamos para o ponto do amasso?”. Pelo jeito os anos 50 nunca poderiam ser apagados, pelo menos nos meus sonhos não, como também a minha contemporaneidade.

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