30 de outubro de 2009

O Gozo Nos Tempos do Consumismo


Nos tempos modernos, é cada vez mais difícil se atingir o prazer com aquilo que temos. Seja com a promoção recém conquistada, seja com o novo belo namorado, seja com uma nova jóia comprada em 12 suaves prestações mensais, seja com seus amigos. Será que nos tornamos tão materialista e consumistas, que é difícil perceber o prazer, mesmo quando está bem na nossa frente? Ou será que não valorizamos mais as coisas que tanto batalhamos para possuir?
Estava eu e Surf tomando um Martini no Assacabrassa. Enquanto ríamos sobre o fato de estarmos bebendo logo numa terça feira, ela jogou a bomba. Voltei com o baby. Baby era o ex-namorado dela que, por ser tão pão-duro, nem a chamava para sair. Namoravam era pelo celular e através de mensagens, pois era mais barato. Como assim, perguntei a ela. Bem, de todos que namorei (e não foram poucos, eu disse baixinho, principalmente enquanto o namorava, complementei), ele era o único que eu podia ligar a qualquer momento, ela disse. Ele sempre estava lá para me ouvir, complementou.
Eu e todos os nossos amigos em comum achávamos que ela deveria terminar com ele o mais rápido possível. Ele não a valorizava, nunca estava ao lado dela e só ficava ligando para brigar por ela estar conosco. Uma vez, foi pegar ela de carro num bar e, ao comentarmos que iríamos num outro ali perto com ela, ele teve a audácia de perguntar se não iríamos de táxi e que iria deixar ela lá. Nem nos demos à audácia de responder sua pergunta, e entramos no carro. Em todo o percurso, nem falamos nada com ele, mas nos preparamos para o fim do relacionamento deles.
Comentei, com a Surf, sobre o episódio que contei acima, mais uma vez. Ela, com sempre, se desculpou por ele. Disse, para variar, que havia conversado com ele sobre o ocorrido e que ele havia se desculpado. Vai lá saber. Eu duvido. Ainda mais por ele ser tão pão-duro. Mas, fazer o que. Falei que ela devia se valorizar mais, coisa que ele não fazia. Comentei que já havia visto ela com tantos outros caras que a valorizavam, que amavam tanto, que fariam tudo o que ela pedisse. Fingiu que não havia me ouvido. Repeti tudo novamente, mais uma vez.
Tanto cansei de repetir, que ela foi obrigada a mostrar que havia me ouvido. Apenas disse que há coisas que não valorizamos nos outros. Perdemos a nossa capacidade de sentir prazer, afirmou. Cada vez mais vejo que as pessoas não valorizam o que o outro lhe dá, apenas ficam implicando com os defeitos, cegos perante as qualidades, comentou. Fácil é ver defeitos, difícil é valorizar as qualidades, filosofou. Percebi que só ficava apontando os defeitos, nunca havia visto suas qualidades, defendeu-o. Foi só quando terminei que percebi o quão bom suas qualidades eram, disse.
Será mesmo que não conseguimos ver as qualidades? Será que só conseguimos ver o que os outros nos trás de mal, ao invés de perceber as coisas gozosas que ela nos dá? Fiz estas perguntas a Surf. Ela disse que sim, pois hoje vivemos num mundo capitalista que mais vale o que o ser tem do que ele é realmente. Queremos atingir os fins, a qualquer meio, maquiavelicou. Se queremos ser felizes, vamos á procura selvagem, cortando qualquer obstáculo que não seja 100% aquilo que queremos, complementou. Acabamos valorizando mais os defeitos que as qualidades. As pessoas já não mais sentem o gozo de algo. Ou aquilo trás prazer naquele momento ou já era, filosofou.
Fiquei pensando em meus relacionamentos, mais uma vez. Será que eu havia usado todos eles e, por não ter atingido o gozo nas primeiras vezes, eu acabei terminando? Será que eu não conseguia ver as qualidades antes dos defeitos? Raciocinei o mais profundo que pude. Entrei no fundo de minha alma para tentar responder minha pergunta. Lembrei do Pièrre. Lembrei de seus defeitos e qualidades. Parece que eu havia visto antes as qualidades, graças a Deus. Lembrei do Hagolph, daquilo que amava e detestava nele. Vi que havia visto as qualidades antes dos defeitos. Por último, lembrei do Hirh, meu atual ex-namorado. Só neste caso havia lembrado de ter visto os defeitos antes das qualidades, mas também, não havia desistido tão facilmente assim.
Enquanto acabávamos de beber o Martini e pedíamos a conta, minha cabeça se viu presa na história de Hirh e eu. Quando o vi pela primeira vez, ele foi a pessoa mais egocêntrica e chata do mundo. Por isto, havia visto primeiramente seus defeitos. Mas, conforme nos encontrávamos, pelo simples acaso, comecei a ver algumas de suas qualidades, que se superavam aos seus chatos e irritantes defeitos. Terminamos, pois ele me amava mais do que eu a ele. Queria me ter ao seu lado em todos os momentos e, como vivemos em lugares diferentes, mostrei que isto seria impossível no momento. Então, ele resolveu terminar.
Quando a conta chegou e já íamos pagar, resolvi contar sobre o Hirh para a Surf. Contei toda a nossa história, enquanto ele tomava os últimos goles de seu Martini. Viu, ela disse, só queremos o prazer momentâneo. Não conseguimos mais esperar para sentirmos o gozo. Valorizamos o agora do que o depois, completou. Contra-argumentei com um não, pois se o argumento dela fosse verdadeiro eu não teria namorado ele. Então o que você chamou de defeitos era o que lhe deu prazer imediato ou você viu, ao mesmo tempo, algo que lhe dava prazer, ela disse. Tentei á todo custo disser que não, mas nem me ouviu.
Joguei então meu argumento final. Falei do Pièrre e do Hagolph. Ai esta toda á lógica de meu argumento, ela disse. Você sentiu feliz com algo naquele momento, por isto continuou. Quando acabou, você terminou, ela finalizou. Eu nem quis mais argumentar. Aquela conversa já não me dava prazer mais. Realmente fiz validar a lógica dela.
Despedimo-nos e fomos embora. No caminho de casa, comecei a perceber o que tanto gostava em cada um de meus namorados. Talvez a Surf estivesse certa. Queremos algo bom agora e não depois. Mas, eu preferiria algo melhor depois a um bom agora. Nada contra algo bom agora e melhor depois, como havia sido a maior parte de meus namoros. Quem sabe, não vemos mesmo os defeitos antes das qualidades, mas talvez numa vil tentativa de nos prepararmos para o futuro. Antes saber o mal agora e o bom depois, do que o bom agora e sofrermos o mal depois. Ninguém gosta de sofrer. Talvez por isto queremos tanto o prazer no momento, pois a dor é insuportável e nossa mente não aceita que algo bom tenha algo ruim nela.
Andando eu ia, pensando nos prazeres que cada um dos meus ex-namorados havia me dado, todos os bons e os maus momentos, toda a nossa história juntos. Não presei pelo prazer, mas também não fiquei preso aos defeitos. Aceitei os defeitos quando vi o gozo que me davam. Assim é a vida, uma simples comparação do bem e do mal, uma troca de coisas. Se alguém me der algo bom, relevarei seus defeitos, e vice-versa, espero. Esperando vou, á procura de alguém que veja meus defeitos, mas os releve pelas minhas qualidades.

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